José do C. Ligeski - Meus versos não traduzem a alegria de um êxtase incontido. Eles são apenas uma ponte do real ao mais profundo de mim.
Busco nas palavras os encantos e magias que os românticos e apaixonados pela vida sentem; busco no meu íntimo desvendar os mistérios que envolvem os viajantes deste pequeno-grande planeta; tento transpor nas palavras essa incessante procura da quintessência da vida... Às vezes me encontro, às vezes me perco... Entanto caminho no caminho da poesia... Hóstia da alma de cada dia.
Achados & Perdidos

Eu perdi o espaço,
Eu perdi o rumo,
Eu perdi o ônibus,
Eu perdi a graça,
Eu perdi o jeito,
Eu perdi o fôlego,
Eu perdi o tempo.
Tempo de fantasia,
Tempo de fantasmas
E de fantoches,
Idiossincrasias.
Eu perdi a chave,
Entendi o enigma:
Nada está perdido.
Tudo o que é lembrado
Será um dia esquecido!

José C. Ligeski



A Eterna Busca Do Eu


De onde viemos,
para onde vamos?...
Sempre perguntamos,
sempre duvidamos,
ponto de interrogação
no infinito do Tempo.
Somos sementes espalhadas
pela mente Cósmica
neste pequeno horto
chamado Terra.

Nascemos...crescemos...
seara madura, colhida,
escola da vida
que viaja pelo infinito...
que vai e retorna
em outras searas...

Voltamos de mãos dadas
com muitas consciências
(apesar das ciências)
Nossa viagem sem fim
não acontece lá fora,
acontece aqui dentro...
do aqui e do agora!

José C. Ligeski



Ainda Sinto...

Ainda sinto o teu cheiro
No lençol puído
Onde ainda restam
Desenhos em relevo do teu corpo
De um momento mil vezes vivido.

Ainda dança em minha retina
Essa paisagem erótica,
O cânion entre a tuas coxas...
Todos os contornos dessa paisagem rara.

Seguro ainda entre as minhas mãos
Dois frutos redondos e tenros...
Sinto-lhes ainda o cheiro.

Teia de fino fios que se entrelaçam
Se apertam entre sulcos e estreitas paredes...
Se enroscam...se amassam!

Escalo degrau por degrau
As paisagens exóticas do teu ser.
Quero vê-la e senti-la por inteiro...
Fundir-me com ela
Sentir-me possuído...me desfazer...
Comprazer!

José C. Ligeski



Amanhecer


Hoje o Sol bateu em minha janela
e perguntou:
"Quer saber onde está a sua amada?
Ela dorme um sono profundo e onírico,
mas sua alma caminha pela estrada.
O seu corpo repousa no calor
de um leito acolhedor...aconchegante.
Sua alma viaja,ofegante
rumo ao sul...
Ela busca em transe seu amado...
Seu amante!
José C. Ligeski



Amor, Esse Mistério


O que é o Amor?
Muitos já perguntaram.
Não há como defini-lo.
Não é objeto científico,
É subjecto, não analítico,
É individual, sintético.
É único em essência,
Múltiplo em manifestação.
Está onde não está,
Existe e inexiste...
Não acaba, persiste,
Porque é inerente,
Se sente pelo ser em cada ser.
Alegria e prazer,
Êxtase ou euforia...
O mistério nosso de cada dia.
Esconde-se onde não o achamos,
Aparece quando não esperamos,
Sentimos mas não vemos:
É invisível aos olhos,
Perceptível a almas e corações.
Guerreiro invencível,
Trava batalhas seculares
Contra os egos e a sede de poder.
Combate as trevas com sua luz:
Sem armas, conquista,
Amansa, seduz.
Estrategista insuperável,
Conhece seus inimigos,
Evita o corpo-a-corpo,
A luta sangrenta, a dor.
Suas armas preferidas:
Sorrisos, flores, estrelas e canções.
Sua caserna? O mundo.
Seu campo de batalha?
Os nossos corações!

José C. Ligeski



Aqui Tudo Lembra Você.

Aqui tudo lembra você.
O balé das árvores ao ritmo do vento
lembram os teus cabelos dourados
como guirnaldas penduradas
no galho do tarumã.
Aqui tudo lembra você.
O rio que desce preguiçoso o seu caminho,
o vôo vertical de uma libélula,
o canto harmonioso dos pássaros
como uma canção saída de um poema teu.
Aqui tudo lembra você...
A lua alta aparecendo tímida
como você na primeira vez.
O brilho das estrelas,
o vagar incerto dos pirilampos,
como se fossem os teus olhos
a me procurar.
Aqui tudo lembra você...
Até o silêncio da madrugada
como o teu sono repousante nos meus braços.
A suavidade do remanso
quebrada pelo rebotear do mandi.
Aqui tudo lembra você,
Pois é você que está em mim!

José C. Ligeski



As Mãos E A Terra


Era uma vez um pedaço de chão,
Uma terra inerte, inútil,
Sem brilho, sem vida,sem cor.
Terra de ninguém.

Era uma vez um grupo de gente,
Gente de bem, de bem com a vida,
De bem com o mundo.
Gente da terra, raízes nos pés,
Folhas nas mãos...

Olharam a terra, inóspita, seca,
Escrava do sol.
Reuniu-se essa gente, ousada,
Irreverente, idéias à mostra, enxada na mão.
Mexeram a terra, libertaram a terra,
E ela cresceu!

Gente pequena, gente crescida,
Gente mediana, tudo misturou (se).
Pernas de ferro, punhos de aço,
Corações de ouro tocaram a terra!

No início, tão poucos.
Depois vão chegando,
Curiosos e pasmos,
Até desconfiados:
( que gente maluca, será que vão plantar?
Olha o professor, sujo de terra! Olha a
Professora, sujou a mãozinha, tadinha!)

Depois, todos juntos,
Entraram em cena.
Todos eram cúmplices
Da mesma receita;
Todos opinaram, todos temperaram
Sem preconceito, orgulho ou despeito.

E a terra acariciada
Por mãos tão alegres
Cresceu, engravidou...
Pariu lindas formas,
No início, esquixóticas,
Depois bem simétricas,
Trigonométricas, geológicas,
Geométricas, emfim!

Todos de mãos dadas
Saudaram os símbolos.
Sorriso na cara,
Orgulho no peito,
Ficou a lição:
Cada um caminha com seus
Próprios pés,
Mas isso não impede
De darmos as MÃOS!

José C. Ligeski



Ausência

Há uma ausência no ar.
Ausência de esperança,
ausência com gosto amargo
de melancolia.

Há ausência de Sol:
só há sol ao meio-dia...
Já não vemos o sol da tarde
que tanto contemplamos um dia.

Há ausência de sorrisos,
do amanhã incerto,
há ausência de paz,
do viver a céu aberto...

Há ausência de amores.
Onde foram parar as esperanças?
Como crianças órfãs,
procuramos em vão pelos nossos avós.

Perdidos no passado...
Buscamos nossos pais
num presente fugaz
que não tem ponto de chegada.

Ausência!
Ausência de estar...
Vazio escuro da existência.

José C. Ligeski



Bicho Homem

Olho para o firmamento,
Vejo apenas partículas luminosas
Que a ciência classifica friamente
Como estrelas...estrelas novas,velhas,
Verdes,vermelhas, enfim,estrelas...

Olho para a imensidão do mar,
Vejo apenas uma imensa massa
Líquida em movimentos afoitos,
Formando um gigantesco lago
Verde (ou será que é azul?).

Olho para todos os lados.
Vejo montanhas, florestas, e rios
E animais...muitos animais
Que vivem, que se reproduzem.
Seguem leis ditadas pelo próprio
Instinto.

Enfeitam a Natureza, compreendem as leis da criação...
Amam!

Mas o Homem, pobre espécime racional
E superior a todas as espécies,
Não aprendeu amar,não aprendeu a obedecer...
Esqueceu de fazer leitura do mais belo
Capítulo do livro da criação:
O capítulo da Humildade!

José C. Ligeski



Caminhada


Você deixou um deserto no meu peito,
ressequido e povoado de temores.
Vou regá-lo e cultivá-lo sem despeito.
Vou transformá-lo num painel cheio de flores.

Você deixou uma nuvem no meu céu,
fechou-me à Terra ao meu Sol, minhas estrelas.
Mas vou abrir os faróis da minha alma,
e num vôo lépido e etéreo vou revê-las.

Sigo sozinho a caminhada sem roteiro,
deixando rastros de memória e de carinho!
Não sei em que rincão chego primeiro,
só sei que se chegar chego sozinho.

Mas se um dia se cansares da jornada
e fugir da solidão que hoje evito,
é só correr e me alcançar na velha estrada:
a velha trilha onde se busca o infinito.


José C. Ligeski



Chegada

Com passos lentos
Você foi chegando
Em minha vida

Veio caminhando
Entre nuvens e flores
Derramando versos
Pelo caminho

Entrou no quarto
Escuro da minha existência.
Tomou as chaves,
Abriu portas e janelas,
Deitou todos os entulhos
Do meu passado
Na lixeira da história.

Você chegou, escancarou
Janelas e portas dos
Meus sonhos,
Exorcizou fantasmas e demônios,
... e fez parte de mim

José C. Ligeski



Como Nasce Um Poema.

Um poema nasce em qualquer lugar.
Não tem preferências nem preconceitos.
Sem religião, sem ideologia...
Sem apego à matéria, livre,
nômade, vagabundo.
Indiferente, irreverente,
aparece em qualquer lugar!

Como um fantasma,
perambula por todos os lugares:
Assusta uns,diverte outros e...
faz muitos irem às lágrimas.
Sua jornada é incerta,
às vezes tortuosa, misteriosa...
Às vezes hermética.

Misterioso e fascinante,
persegue a todos
Que têm alma nobre...
Hermafrodita e sensual, cativa,
seduz.
Engravida, dando à luz
A uma interminável prole bastarda.

É imune a doenças modernas.
Resiste soberbo a vírus e hackers.
É imortal como os deuses, eterno, infinito...
Namora a Vida, corteja a Morte!

Dissimulado e atrevido,
desafia os poderosos,
ironiza demiurgos, sociólogos
e donos da Verdade!

Segue sua interminável trilha.
Cruza campos minados
e zonas de guerra,
deixando cair aqui e ali uma sementinha...
...e um novo poema já está a caminho!

José C.Ligeski



CONTEMPLAÇÃO

Veja, minha amiga aquela montanha:
Alta, imponente, majestosa, mas ela não tem
A exuberância da tua silhueta...

Olha, minha amiga, a linha do horizonte,
O Sol que se põe, absoluto em seu caminho imutável...
Ele já não emite mais calor, mas o teu
Coração continua cálido, dando calor
E vida à tua alma... e à minha alma!

Sinta a maciez daquela flor: tenra,
Perfumada, meiga. Uma-a aos teus lábios
E verás que ambos têm a mesma maciez,
A mesma ternura... que ambos são cúmplices
De um momento de alegria e êxtase!

Pegue as minhas mãos,
Sinta a minha pele colada à tua...
Não diga nada, palavras não podem dizer nada...
Só nossos olhos e nossas mãos
Contemplam-se, contando uma história atemporal,
Maravilhosamente bela, de duas almas que caminham
Na trilha do Sol rumo ao infinito!

José C Ligeski



Crepúsculo

O sol se põe, a noite desce
minha alma procura refúgio da escuridão
que vai chegando...
A noite e seus mistérios
que encantam, às vezes assustam!
...a noite nada mais é do que
a espera... a espera de um novo dia
um novo dia que te espero...
um novo tempo
que invento e reinvento
ao som da chuva e do vento.
Mas como um franciscano
eu espero,
espero um novo amanhecer.
Espero...VOCÊ!

José C. Ligeski



Criação

Quando o mundo ainda era um caos completo
E a Luz de Nous pairava no firmamento,
A massa amorfa, em torrencial tormento,
Eis que surge então a grande obra do Arquiteto.

Na sua infinita perfeição e inteligência,
O Criador moldou e esculpiu a tenra estátua,
Que surgindo de um turbilhão de massa se compacta,
Tornando-se, assim, da Vida a própria essência.

Felicíssimo com sua nova criatura,
Que das plagas terrenas seria soberano,
E de todas as benesses divinas faria usura;

Imbuiu-se o Criador de novo plano.
E tomando uma costela em compostura,
Perpetuou-a com um sopro a Espécie Humana!

José C.Ligeski



Desejos Íntimos

Hoje eu queria que o tempo parasse.
Cessar a caminhada, corrigir a rota,
percorrer todo o caminho de volta...
se possível até retornar às entranhas de quem me gerou.

Apagaria os sonhos,
destruiria os rastos por onde passei.
Colocaria de volta em seus lugares
todas as paixões proibidas...
os amores impossíveis...
Não amaria ninguém.

Começaria tudo, escolhendo outra estrela,
Outra estrela-guia que me desse mais sorte...
Olharia o mundo sem emoção,
sem dor, sem ilusão!
Calaria a minha voz,
fecharia meus ouvidos para a sorte atroz.

Eu queria parar o tempo,
parar o velocímetro da história.
Retomar a trilha, começar do nada,
plantar só flores na minha estrada.

Mas eu não posso parar o tempo,
aceno e quero voltar.
Pegar outro destino, quem sabe um atalho,
mas minha ânsia já não é sentida.
Procuro...procuro em vão uma saída!

Quero jogar fora essa bagagem
que me pesa tanto.
Quero me libertar de todas essas máscaras
Que me pesam tanto...na alma e na viagem!

Quero sair daqui, este lugar me assusta.
Quero sair daqui para me encontrar,
entrar dentro de mim e me libertar!...
Bater na porta do meu próprio mundo,
Ficar só, contemplando a minha alma,
Sorrindo pra ela como uma criança
(que nunca fui)

Entrar na salinha de espera,
sondar, pela janela, contemplar o céu...
Ouvir o mar, ouvir o vento...
Ouvir a minha própria voz
Que há muito se calou!

José C. Ligeski



Despertar

Abro ao olhos ainda na escuridão.
Lentamente raios
Verdes-amarelos-brancos-azuis
Se agrupam na minha janela.

O manto púrpura do dia
Expulsa a negritude da antemanhã
E a Aurora abre os braços
Para me receber.

Sinto-lhe o calor
E o pulsar da vida,
Mil cantos coloridos ouço.
Arautos da liberdade
Desfilam no espaço ainda opaco.

Milhões de pingos de prata
Saúdam Sua Majestade
Para depois se esconderem
Como crianças peraltas.

Um cão ladra, um ônibus passa,
Anjos de carne e osso brincam
No pó da terra.
Um cheiro no ar, um vento,
Um véu escuro ofusca a presença do Rei.

Os súditos cumprem seu papel
Súditos que vivem na Terra,
Súditos que brilham no Céu!

José C. Ligeski



Dualidade

Homem, divisão da própria vida.
Duplicidade do ser entre o conhecido
E o mistério.
Homem esse ser racional e irracional,
Tão incapaz de sentir o presente...
Preso a um passado que não existe,
Prisioneiro de um futuro imaginário!

Homem, ser contraditório, busca e poder
Negando a própria essência de um ser mortal...
Única certeza absoluta projetada em seu
Futuro incomensurável.

Homem de corpo e alma,
Mais de corpo,menos de alma,
Dividido entre dois mundos inacessíveis:
Um mundo material, imensurável;
Um mundo espiritual, incognicível!

José C.Ligeski



Espera

Os dias são cheios de esperança.
As noites escuras estão povoadas de esperança...
As horas são contadas com esperança.
Só a realidade é implacável.

Não podemos viver sem esperança,
Nem viver de esperança.
O mundo está debaixo dos nossos pés.
Os nossos sonhos, acima da nossa cabeça,
Ou em algum lugar recôndito
Dentro de nós.

Vivemos de esperança
E na esperança
Que a Vida traga-nos o que
Nunca esperamos: o inatingível.

José C. Ligeski



Falar Com Você


Meu Amor,
Falar com você é poesia,
é ar e cheiro de primavera.
Corro,crio asas no meu dia
só pra te encontrar,
mas a noite, a noite
só você espera!

Você é da noite, é dos Mistérios.
Você ouve a música das esferas.

A noite desce, e eu sempre espero
Encontrá-la nessas plagas...
Na interminável dança dos meus Sonhos!

José C. Ligeski



FLORES

As flores encantam.
As flores fascinam,
atraem, perfumam...
germinam.
As flores são frágeis,
São puras, são mansas,
Seguras:
Inspiram poetas,convencem ascetas,
Convidam à Paz!
Gostam de carinho...
Não separam, aproximam...
As flores não mentem, não ferem,
Não sentem...não julgam.
Agradam aos olhos,
serenam a Alma,
disfarçam a dor!
As flores são solitárias,
também solidárias.
Beijam nossas mãos,
abraçam o vento,
se banham ao luar,
namoram o Sol,
conversam com Deus!

Ah! Como eu gostaria
de ser como elas!...
Tão efêmeras, transitórias...
Nascer...crescer...encantar
morrer...despetalar...
Ser carregado pelo vento
Para longe...muito longe...
Para além da Dor...
Para as mais distantes plagas...
Para o eterno esquecimento!...

José C. Ligeski



Hoje É Poesia

"Hoje resolvi dar uma trégua.
Hoje olhei o céu e vi uma lua pequenina.
Linda como o rosto de Beatriz
na "floresta virginal, ampla e sombria,
que um pouco da luz quebrava,matutina."

Hoje resolvi ser um poeta,
mesmo tosco em palavra e pensamento.
Vejo a Lua e a Lua hoje é poesia.
Fecho os olhos e viajo como o vento.

Deixo que o sonho me transporte ao Paraíso.
Embala-me uma doce voz que diz:
-Vem cá,vem juntar-se aos meus poetas,
"Olha-me bem! Eu sou, eu sou Beatriz!"

Olho o Céu e a Lua já se foi.
Descem-me as lágrimas, já não posso mais contê-las.
Mas Beatriz segura minhas mãos e diz:
Viva "o amor que move o Sol, como as estrelas."

José C.Ligeski



Identidade


Não sou o que sou.
Não sou o que aparento ser.
Há em mim somente
sinais de intermináveis eras.
Sou uma complexa combinação
de carbono e bactérias.

Sou parente de quem?
Não me pareço com ninguém.
Sou um feixe com bilhões de corpúsculos
que ganharam apelidos
gregos e latinos...
Sem parentesco, sem destino.

Quantos pais eu tenho?
Milhões e nenhum!
Quantas mães?
Em quantas eras?
Já era!
Não sou, estou
num planeta
que viaja alucinado
entre sóis e estrelas.

Mas a mente inquiridora
não cessa:
“Quem sou eu?”
Filho do maravilhoso Caos
criado por uma mente fria.
Uma mente que não mente,
não responde, não sente...
Só cria!


José C.Ligeski



Imagens

Onde você está agora?
À beira do mar,
à beira do rio,
à beira dos sonhos?
Entre árvores e pedras,
entre anjos e demônios?

Onde pisam os seus pés,
o que tocam as suas mãos?
Tocam flores, espinhos ou solidão?
O que vêem seus olhos soturnos
nesse céu que se levanta,
naquela montanha ondulante,
nestas ondas quebradiças?

Em que pensas agora,
que imagens fazes de mim?
Que lugar ocupo em teu sonhos:
começo, meio ou fim?

José C.Ligeski



In-Consciência

Estou sentado à sombra
De um pequeno cinamono.
Tão pequeno! No entanto,
É um ponto de partida
Para infinitos pontos do Universo.

À luz do dia, refletem
Apenas os raios poderosos do Sol.
À noite, é como um ponto
perdido e secreto apontando
para milhões de estrelas.

Eu sou metade cinamono,
metade pó das estrelas
que nunca poderei tocar.
Sou apenas eu consciente
dessa imensidão inacessível..

Sou estrela e cinamono...
Sou tudo e nada
no insondável mistério do existir!

José C.Ligeski



Interrogações


De onde vem essa luz que te iluminas,
Indômito raio que te circunda, que te enlaça?
É dos teus olhos? Do teu coração?
Não! É a luz da estrela que brilha no pálio
Da tua alma inquieta...
De onde vem essa força inesgotável que
Habita esse animal tão dócil?
Vem dos teus músculos? Dos teus nervos?
Não! Ela vem dessa fortaleza inabalável
Que é a tua vontade de superar os próprios limites...
De onde vem essa ternura que tempera tudo o que fazes?
É produto de técnicas ou simples manifestações biogenéticas?
Não! Ela nasceu bem antes da cumplicidade
De dois minúsculos seres que deram origem ao teu ser...
De onde vem esse desencanto que por vezes
Tornam plúmbeos os raios dourados da tua Aura?
É inato no teu ser?
Não! Ele é produto acabado da angústia
Que sufoca a tua alma por:
Ter só dois ombros para recostar a cabeça de tantos vencidos.
Ter só duas mãos para enxugar as lágrimas de tantos desesperados.
Ter só uma boca, pequena e frágil, que já não faz eco diante de tantas injustiças.

Mas você tem um coração, um só.
Ele é a retorta onde misturas todos
Os teus sentimentos, produzindo
O mais belo tesouro da Alquimia Humana:
O Amor!

José C. Ligeski



Introspecção

O vento dança lá fora.
Uma música suave
entra janela a dentro.
É o farfalhar das folhas
Numa doce melodia em bemol.
A música penetra nos meus poros
E ouvidos.
Agradecido e complacente,
Deixo-me levar pela
Música do vento...
Música de paz e poesia,
formas sonoras de pensamento.

José C.Ligeski



Invasão

Se você sonhar,
acredite, estarei lá dentro
disfarçado de pirata.
Você não me vê,
mas eu te vejo,
te abraço e te beijo.
Faço uma graça
e me escondo
só pra te ver me procurar,
e quando você vacilar
eu te roubo...roubo um beijo,
e junto com o beijo
roubo você!

José C. Ligeski



Mãe Natureza


A Natureza está grávida.
Uma gravidez que ilumina e perfuma.
Traz no ventre inoculado e soberbo
todas as vidas infantes.

Seus filhos continuarão nascendo
indiferentes às agressões do Homem.
E a Mãe Natureza orgulhosa e doente:
orgulhosa dos filhos tão tenros,
e doente pela dor que a consome.

José C.Ligeski



Minha Namorada

Minha namorada,
é doce pensar em você.
As letras do teu nome
estão gravadas na moldura do tempo.
Tempo que não pára,
tempo que não chega...
A força dos nossos sonhos
é que nos mantêm seguros...
apaixonados, calmamente
esperando o amanhã.

Minha namorada!
Meu sol de cada dia.
Lua perfumada
das minhas noites infindas...
Te espero...pacientemente
como um monge de clausura...
Te espero fazendo poesia,
conversando com as estrelas.

José C.Ligeski



Mistério Da Vida


A vida é o mistério da vida!
Nos dá e nos tira tudo o que gostamos e o que não gostamos.
Momentos de tormento e paz se alternam...
nos matam e nos ressuscitam vertiginosamente.
Nada somos, e somos tudo,
manipulados por forças invisíveis.
Filosofamos no vazio...vazio da existência
que nos dá a experiência
de sermos tudo e nada...
Tudo o queremos, e nada do que podemos.
Almejar o nada, é tudo o que não queremos...
E o que queremos é tudo o que não podemos.

José C.Ligeski